Comunidade
Centenas de canoenses enfrentam fila para cadastro do FGTS
No bairro Rio Branco, uma moradora chegou por volta das 13 horas de terça-feira, 10

Fila no bairro Mathias Velho virava a esquina do Centro Social Urbano para sacar o FGTS. Foto: Bruno Lara/OT
Por Bruno Lara
A noite de terça-feira, 10, não foi de descanso para centenas de trabalhadores canoenses. Após serem atingidos pelos temporais que levaram Canoas a decretar situação de emergência, no início de outubro, o desafio, após perder tudo, é aguardar nas filas para tentar sacar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
A Prefeitura Municipal de Canoas, em parceria com a Caixa Econômica Federal, informou quatro pontos que nesta quarta-feira, 11, devem receber a população para entregar os documentos e solicitar a retirada do Fundo após as 8 horas, valor que deve ser liberado em cinco dias após o procedimento de cadastro. A equipe de O Timoneiro visitou os locais e se deparou com filas que viram esquinas do município.
Mathias Velho

Para ser o primeiro da fila, o eletricista Martin Corrêa chegou pouco antes das 18 horas no Centro. Foto: Bruno Lara/OT
A jornada começou no Centro Social Urbano do bairro Mathias Velho, na avenida Rio Grande do Sul. A fila se estendia do Centro até a Escola Especial para Surdos Vitória, na rua Caçapava. Centenas aguardando em frente as portas fechadas. Martin Corrêa, 44 anos, eletricista, morador do bairro Harmonia, foi o primeiro a chegar. Segundo ele, chegou ao local por volta das 17h40min desta terça-feira, 10. “Espero que seja rápido (amanhã) para minha esposa. Ela tem só a parte da manhã livre e de tarde precisa voltar para o trabalho. Por isso vim cedo”, explica. Corrêa teve a casa danificada nas chuvas e precisa sacar o recurso. “Choveu dentro (de casa). Molhou o quarto das gurias, dos guris e afetou todo o telhado”, lamentou.
Rio Branco

Moradores do bairro Rio Branco reclamam de como procedeu a Prefeitura em frente a Igreja Imaculada Conceição. Foto: Bruno Lara/OT
No Rio Branco a jornada começou ainda antes e a fila superou a do Mathias Velho. Maria Rosenilda Gonçalves, profissional de serviços gerais, moradora do Rio Branco, foi a primeira a chegar em um dos pontos de cadastro: A Igreja Imaculada Conceição. “Eu cheguei aqui era uma hora da tarde (13 horas) na chuva”, descreveu. Ela reside há mais de 35 anos no bairro e relata que não recebeu lonas ou telhas da Defesa Civil e que jamais viu tanto estrago. Silvino Baldicera, também um dos primeiros, sugeriu outra forma de organização. “A Prefeitura deveria fazer um papelzinho, uma senha para todo mundo. É uma judiriaria. Vamos passar a noite toda aqui. Eu sou um que trabalho”.
Segundo Baldicera, a proximidade com o Prefeito, que segundo ele conhece desde a adolescência, não ajudou em solucionar o problema. “Eu me criei com o Jairo fazendo panelão de comida quando ele foi o primeiro candidato. Foram 30 anos atrás, quando eu tinha 17, 18 anos. Pede para ele passar um vídeo do Palácio Piratini. Eu tenho a foto de eu e a minha mãe fazendo comida para os outros para ele ganhar voto e hoje nós estamos passando vergonha aqui. Eu acho crítico. Uma vergonha do Jairo. Ele deveria fazer uma fixinha e ser mais humilde. Nós que botamos ele lá”, argumenta.
Para Vania Pinheiro, também residente do bairro onde a Imaculada Conceição está localizada, argumenta que a situação não é confortável. “É uma vergonha. É uma humilhação”, lamenta. Conforme Vania, o dinheiro disponível não será o suficiente. “Ainda dizem que só uma pessoa da casa vai ganhar. A gente perdeu tudo. Minha mãe perdeu tudo. Ela é idosa, tem um salário mínimo. Se não é a gente ajudar, como ela vai construir de novo? Ela não tem direito a esse beneficio, pois é pensionista no caso. Se não é a gente ajudar, como tu vai fazer a tua casa, a dela, com R$ 6.200? É uma vergonha. É um absurdo. Tu não ter o direito de sacar o teu dinheiro”, reclama a moradora da rua Lima da Costa.
Segundo ela, o auxílio não chegou até o local. “Ninguém foi lá ver se estávamos vivos. Sem contar a sujeira. A rua está toda trancada. Ninguém sai de carro, de moto. Na hora da votação eles vão lá na tua portinha pedindo voto” relata. Além de perder boa parte da casa, o serviço de fornecimento de água e luz foi prejudicado. “Nós ficamos quatro dias sem água e sem luz. Ninguém foi lá perguntar se estávamos precisando de remédios, de alguma coisa. Nada”, reclama. Outro problema é o extravio de documentos. “Eles estão pedindo documentos que tu perdeu no temporal. Como é que tu vai ter conta de luz do mês seis ao mês dez? Não tem condições. Se tu pega cópia ainda não aceitam”, questiona.
Niterói e Guajuviras
A equipe de O Timoneiro visitou os quatro pontos de cadastro para receber o FGTS divulgados pela Prefeitura. A maior fila foi encontrada no bairro Rio Branco, visitado por volta das 00h20min, que foi desde a Igreja Imaculada até a metade da quadra, local onde se situa um beco sem nome definido.
No bairro Niterói, o mais danificado pelas chuvas, a fila também virava a esquina do Centro de Assistência Social La Salle, chegando até a metade da quadra da rua Alegrete. Na escola CAIC, na principal avenida do bairro Guajuviras, a equipe de OT não observou movimentação. Não havia fila ou cidadãos aguardando o abrir dos portões até a primeira hora da madrugada de quarta-feira, 11.
Comunidade
Sorteio do Minha Casa, Minha Vida contempla 250 famílias. Confira lista.

Foto: Jhennifer Wolleng
Com transmissão ao vivo pela internet, a Prefeitura de Canoas, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação, realizou nesta quarta-feira (16) o sorteio do programa Minha Casa, Minha Vida. No auditório Sady Schivitz, na sede da Prefeitura, foram contempladas 250 famílias, que irão morar nos Residenciais Pistoia e Santa Fé, no bairro Rio Branco. Também foram sorteados os candidatos suplentes.
Os dois complexos habitacionais estão em fase de construção, com previsão de entrega dos imóveis para setembro deste ano. Antes de ocupar o imóvel em definitivo, os contemplados passarão pelo processo de análise documental na Caixa Econômica Federal e pelo trabalho técnico-social da Prefeitura, que promove um processo de adaptação das famílias à nova moradia.
Confira aqui a lista dos sorteados
Ao todo, os Residenciais Pistoia e Santa Fé oferecem 500 unidades habitacionais. A outra metade das famílias que irá morar no local será reassentada, já que ocupavam anteriormente invasões que foram alvo de reintegração de posse pelo município.
Nesta quarta-feira, participaram do sorteio os cidadãos que realizaram o recadastramento. Enquadram-se nos critérios nacionais famílias residentes em áreas de risco, insalubres ou que tenham sido desabrigadas, comprovado por declaração do ente público; famílias com mulheres responsáveis pela unidade familiar, comprovado por autodeclaração; e famílias das quais faça(m) parte pessoa(s) com deficiência, comprovado com a apresentação de atestado médico.
Comunidade
Assembleia de Deus comemora 80 anos de fundação em Canoas
A igreja Assembleia de Deus, de Canoas, comemora uma marco importante na cidade. O Jubileu de Carvalho da entidade ocorre nesta sexta-feira, 18 de agosto, e terá programação intensa de comemorações. O pastor Edegar Machado, líder da igreja no município há mais de 30 anos, recebeu a reportagem de O Timoneiro para falar acerca da programação das celebrações e sobre a atuação na cidade.
Tamanho
A importância da Assembleia de Deus, de Canoas, é contada também em números. A instituição, de acordo com Edegar, abrange atualmente 16 mil membros e conta com 88 igrejas na cidade. “A igreja se expandiu através do trabalho missionário e atua em diversos ponto do mundo”, conta Edegar.
Visão Social
O pastor destaca a visão social da instituição: “Não temos somente o trabalho espiritual, mas cuidamos do lado social. Eu considero isso como a outra mão da igreja. Nós temos o lado humano, que é alcançar as pessoas em suas necessidades”, comenta. O trabalho realizado abrange especialmente o cuidado de crianças. Edegar ainda citou projetos como escolas artesanais, que ajudam no desenvolvimento de trabalhos comunitários, além de postos de distribuição de sopa vinculados à Associação Beneficente Lar Esperança de Canoas , onde são atendidas cerca de mil crianças por semana.
Programação
A igreja promove cultos de celebração na sexta-feira, 19, até domingo, 20, no templo central da Assembleia de Deus, no bairro Mathias Velho. No domingo, a partir das 9 horas, ocorre concentração na praça Antonio Beló, na Rua Dr. Barcelos, onde será inaugurado um monumento em homenagem aos 80 anos da igreja. Após, são esperadas quatro mil pessoas para uma caminhada até o templo central da instituição, onde ocorrerá culto de graças.
História
Por determinação do pastorado da Igreja em Porto Alegre, o evangelista Amaro dos Santos foi designado, em 1937, para cuidar do trabalho da instituição em Canoas. Os primeiros cultos ocorreram no bairro Niterói. Ficou marcado na história da igreja um grande culto, realizado junto a uma figueira localizada nas proximidades da casa de André Lemos, em 18 de agosto de 1937. O local permanece com a figueira até hoje e, por conta disso, foi escolhido como local para a homenagem aos 80 anos da instituição.
Comunidade
Canoense tem 94 anos de futebol, mídia, direção e simplicidade
Marcelo Grisa
Hélio Ferreira da Silva nasceu em 1º de outubro de 1923. Filho de empregados na fazenda do estancieiro Victor Barreto, o motorista aposentado viu a história do século XX como poucos canoenses puderam. Hélio hoje mora com os sobrinhos Júlio Ragazzon e Raquel Araújo. E esta é sua história.
O futebol e a guerra
No começo de 1932, Hélio observava o nascimento do Sport Club Oriente, um dos mais tradicionais de Canoas. Alguns anos depois, jogou no time e virou craque. Como atacante central, marcava muitos gols.
A incipiente trajetória de Hélio Ferreira no futebol incluiu passagens pelo Canoense e até mesmo no Grêmio. Entretanto, uma grave lesão o afastou em definitivo dos gramados. Uma “pisada” deixou como lembrança um esmagamento logo acima do joelho. “Eu até poderia jogar, mas nunca mais fui. Deu muito medo”, explica.
“Às vezes eu ainda sonho com as mulheres da arquibancada me chamando. Parece que me vejo jogando de novo”, admite. Mas a vida ainda tinha reservado muito mais para o canoense de fala fácil e sorriso alegre.
Nesta época, o canoense já estava na Aeronáutica. Começava a Segunda Guerra Mundial, e todos no quartel ficavam de prontidão, recebendo apenas um dia de folga por semana. “Eu ficava em casa de farda. Se a sirene tocasse, tínhamos meia hora para nos apresentar”, lembra.
Hélio Ferreira da Silva, entretanto, nunca veria os fronts da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Há poucos dias de ser embarcado para o campo de batalha, chegava o mês setembro de 1945. A guerra acaba.
Hélio “Caldas” e Ernesto Geisel
Mesmo antes, durante e depois da guerra, a vivência nas Forças Armadas proporcionou o que seria uma de suas maiores paixões: os carros. Depois de sete anos, saiu da Aeronáutica e tornou-se motorista particular. Acabou por trabalhar 40 anos de sua vida para a Companhia Jornalística Caldas Júnior, dona do jornal Correio do Povo, como motorista da família de Breno Caldas. Por muito tempo, sua família morou na propriedade da família Caldas no bairro Belém Novo, em Porto Alegre.
Recentemente, Hélio visitou os netos de Breno, que o chamaram de “Hélio Caldas”, tamanha fora sua contribuição para a família.
Mas as mais histórias das quais Hélio mais se lembra são aquelas que envolviam os governos da ditadura militar. Primeiro, quando o golpe era dado, em 1º de abril de 1964, Breno Caldas pediu ao motorista que buscasse suas filhas na Rua Coronel Bordini, no bairro Auxiliadora, e as trouxesse ao Belém Novo. Recebeu uma arma, e deveria impedir, depois de todos em casa, que qualquer um entrasse na propriedade. Tendo que lidar com militares às portas do terreno, Hélio deixou-os entrar, mas cuidou cada movimento deles. Depois de uma medição no terreno – o que acontecia no local com frequência – eles foram embora sem maiores percalços.
Em outra oportunidade, em razão do aniversário de Breno Caldas, o presidente Ernesto Geisel, também gaúcho, veio até a fazenda para parabenizá-lo. Hélio teve que esconder um papagaio, que era ilegal, da vista do mandatário. Como um dos genros do patrão acabou por entregar a existência da ave, Geisel exigiu vê-la.
O que se sucedeu, entretanto, tranquilizou a todos. Ao ver o papagaio, que havia sido ensinado a falar muitos palavrões, o presidente desatou-se a rir mesmo sendo xingado pelo bicho.
Cuidado com o caminhão
Ao aposentar-se, Breno Caldas queria que Hélio continuasse trabalhando para ele, mesmo que não mais tendo carteira assinada por sua companhia. Não era bem sua ideia: eram os anos finais da Caldas Júnior antes de sua venda, e o motorista tinha o sonho de ter um caminhão e trabalhar com entregas.
Acabou recebendo a chave de um veículo à sua escolha entre 18 que estavam na garagem da propriedade, escondidos dos credores. “Breno puxou um bolo de chaves do bolso e disse: ‘Escolhe uma. Pode pegar.’ Mais tarde fui lá e escolhi um caminhão.”
Graças à rápida passagem da titularidade dos documentos, Hélio pode ficar com o veículo até poucos anos atrás, quando parou de dirigir. “Não quero me gabar, mas nunca causei nenhum acidente. Com a idade, preferi pedir para o Júlio aqui me levar nos lugares. Não é agora que eu vou ter um solavanco e acabar machucando alguém”, preocupa-se.
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